Adeus a Túlio Espanca

Discurso de despedida.
 

Proferido por Abílio Fernandes, Presidente da Câmara Municipal de Èvora, dia 4 da Maio de 1993


 
Frente à urna, a familiares e amigos e a uma multidão que acompanhou o momento.
Cemitério do Espinheiro, Évora. 

 

 

 

 

  

ADEUS

 A

TÚLIO ESPANCA

 

Trazia no sangue o Alentejo. Teimosamente, levou uma vida a amá-lo, a estudá-lo, a ensiná-lo aos outros: o tempo suficiente, pelo menos, neste país de esquecimentos fáceis, para recolher o reconhecimento nacional e internacional. 

Mas para este homem humilde e sábio, apesar dos muitos caminhos percorridos, muito ficava sempre por descobrir. Todo o tempo era pouco para arrancar, ao seu Alentejo secreto e puro, mais um segredo oculto: o arco de uma janela, um portal quase destruído, uma nora escondida entre silvados. 

Florbela, essa mulher que tão esplendidamente soube amar a sua terra, decerto se orgulharia deste afilhado: fiel às suas raízes, aos seus princípios, tomou-se sábio por amor, trocou as honras e o reconhecimento público pelo seu trabalho, esqueceu-se de si próprio para pensar nas riquezas que a sua terra guardou ciosamente durante séculos. 

Claro que, a respeito de Túlio Espanca, se podem sempre invocar as qualidades de autodidacta, a sua obra monumental, os títulos e o prestígio que alcançou, o rigor, a dedicação, a honestidade intelectual, a postura cívica, a qualidade humana. Mas permitam-me abandonar o discurso institucional para recordar apenas que a História, para ele, também se escrevia com letra pequena. E por isso se passavam horas a ouvir aquele homem simpático, de sobrancelhas fartas e risinho irónico disfarçado atrás da mão, a desfiaras pequenas histórias do quotidiano: as aventuras da vida militar, os sustos da sua iniciação como barbeiro, a grande aventura da sua infância que foi a viagem entre Vila Viçosa e Évora. 

Histórias simples, atravessadas pelo seu inigualável sentido de humor, onde se projectava uma Évora que hoje não reconhecemos, mas que ele sabia tomar viva e presente. 

Esta cidade que ele amou tão apaixonadamente vai sentira sua falta, porque perdeu um amigo insubstituível, e com ele parte da sua memória. Afigura elegante, coroada de branco, não mais percorrerá incansavelmente as suas ruas; o olhar atento e amoroso fechou-se para o branco das casas, para as janelas ogivais, para os enfeites de pedra. 

Morreu, como nasceu, em Maio, depois de se despedir lentamente da vida. Sei que amava o canto de Adriano - que tão cedo se cansou de viver - como amava os livros, o teatro, a música. Mas acima de tudo, contra tudo, amou Évora e o Alentejo. Por isso, permitam-me dizer que não seremos dignos dele se não continuarmos afazê-lo. Florbela cantou um Alentejo amargo e dolorido, vergado ao abandono e à tristeza. Mas nem sempre será assim - e Túlio Espanca acreditava nisso com toda a força da sua esperança. 

Escolheu, com a dignidade que pontuou toda a sua vida, morrer em Maio. Mas é em Maio que o seu Alentejo é mais bonito, como é em Maio que os campos se cobrem de papoilas. Vermelhas, como cravos.

 

Évora, 4 de Maio de 1993.

 

O PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE ÉVORA

 Abílio Dias Fernandes