Homenagem a Túlio Espanca (1913-1993)

Vitor Serrão

 

 

 

VITOR SERRÃO 

 

Professor Catedrático na Universidade de Lisboa

Director do centro ARTIS-IHA-FLUL. Professor de Licenciatura, Mestrado e Doutoramento. Membro do Conselho Científico da Faculdade.

 
 
TERÇA-FEIRA, 28 DE JUNHO DE 2016
 
Historiador, inventariador, crítico de arte, defensor intransigente dos patrimónios da cultura e das artes do seu Alentejo, Túlio Espanca (1913-1993) foi um erudito e um sábio a quem as Ciências do Património, no campo da inventariação de bens, e a História da Arte, numa nova perspectiva micro-artística, devem imenso. Neste preito de homenagem à figura do historiador de arte recorda-se que era, além do mais, homem generoso e simples, atento à divulgação da cultura e empenhado em grandes causas sociais. Apesar da desmemória galopante do nosso tempo, acredito que há heranças imperecíveis e nesse sentido lhe deixo uma palavra de sentida homenagem com absoluta certeza de que a sua obra científica está viva e o seu legado perdura.
 
A obra que nos legou é pioneira e monumental: bastam os oito tomos do Inventário Artístico de Portugal editados pela Academia Nacional de Belas-Artes, dedicados aos Distritos de Évora e Beja, para o afirmarem como referência insubstituível. Mas há ainda os milhares de páginas no Boletim A Cidade de Évora, de que foi o responsável durante décadas, e nos Cadernos de História e Arte Eborense, pondo Évora no palco internacional, e muitas outras publicações alentejanas onde a sua sensibilidade, inteligência, veia arguta de investigador e eficácia na divulgação turística se manifestaram. Aliou o eruditismo 'puro' a um sentido de cidadania consciente e consequente na afirmação dos valores do Património como bem comum. Assim, Évora, a Cidade Património Mundial/UNESCO, deve a Túlio Espanca a candidatura vitoriosa de 1986.

Nasceu em Vila Viçosa a 8 de Maio de 1913 e faleceu em Évora a 2 de Maio de 1993. Na tenra juventude conheceu grandes dificuldades financeiras, embora nascido no seio de família do meio cultural calipolense, que lhe possibilitou ver livros e obras de arte e seguir debates intelectuais, tendo com marca de referência no seu tio, o historiador Padre Joaquim da Rocha Espanca. A 8 de Dezembro de 1930 morre sua amada prima Florbela Espanca, grande escritora e poetisa calipolense que teve em Túlio inegável influência na sensibilização às artes. A 6 de Junho de 1927 morre o primo Apeles, irmão de Florbela, quando o hidroavião que pilotava se despenha defronte da Torre de Belém, uma tragédia sentida por toda a família. Com o casamento, a 6 de Setembro de 1936, com a senhora D. Maria Engrácia do Quental Oliveira (1924-2004), mãe dos seus três filhos e companheira de vida, terá possibilidade de se concentrar no seu trabalho. Nos anos 40, a instâncias de homens ilustres de Évora como Bartolomeu Gromicho, Mário Chicó e Celestino David, inscreve-se no Grupo Pro-Évora e ganha lugar no Curso de Cicerones dos monumentos da cidade após obter brilhante classificação. Escreve os primeiros artigos no jornal O Arraiolense. Aí publica, em oito números, o extenso artigo Breve Descrição Histórica de Vila Viçosa. A obra que então se inicia parte da investigação das fontes e é sob muitos aspectos pioneira. Em 1953, foi bolseiro do Instituto de Alta Cultura e viaja por França e Itália. Começa a elaborar as fichas do Inventário Artístico de Portugal, a pedido da Academia Nacional de Belas-Artes, onde se integra, com o volume referente à Cidade e Concelho de Évora (1966), um exaustivo levantamento descritivo e fotográfico do património arquitectónico e artístico da região, a que se seguiram os seis tomos referentes ao Distrito eborense. Elaborou, de seguida, os primeiros tomos do Inventário Artístico relativo ao Distrito de Beja. Em 1979 é eleito Vogal Efectivo da Academia Nacional de Belas-Artes, de que já era membro desde 1959, como prémio pelo trabalho desenvolvido nos Inventários Artísticos. Além de numerosos escritos dispersos por jornais e revistas e a colaboração assídua no boletim A Cidade de Évora, de que foi fundador, publicou o Guia Histórico-Artístico de Évora (1949-1951), o Património Artístico do Concelho de Évora (CME, 1957), Évora e o seu Distrito (1959), Subsídios para a História da Justiça em Évora (1963), e o volume Évora (1993, Editorial Presença). Espanca torna-se aos poucos figura incontornável para quem se dedica ao estudo da História de Arte. Ao seu trabalho de pesquisa se devem os primeiros trabalhos baseados em recolha sistemática de informação documental sobre o património cultural, com carácter de inventário, do que se acha referente ao seu distrito de eleição, o de Évora. A sua actividade neste campo continua a ser, por inteiro, uma referência. Em 1982 foi galardoado com o Prémio Europeu de Conservação de Monumentos Históricos pelos relevantes serviços prestados no âmbito do processo de candidatura à classificação pela UNESCO de Évora como Património Mundial. Membro da Academia Portuguesa da História, recebeu o Prémio Europeu de Conservação dos Monumentos Históricos e recebeu, ainda, a Ordem de Sant'Iago da Espada, a Medalha de Ouro da Cidade de Évora e o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Évora, este atribuído em 1990, em reforço do reconhecimento académico face ao seu trabalho de vida. Após a sua morte trágica, viria a ser colocada uma estátua marmórea que, da varanda da Sala dos Professores, contempla o Claustro deste Colégio jesuítico, tantas vezes por si revalorizado.

Como historiador de arte, distinguiu-se pela vastidão e rigor do seu trabalho de inventariação e investigação do património artístico do Alentejo, que só foi possível pelo domínio que adquiriu da História da Arte internacional, fruto de leituras, contactos com especialistas e viagens de estudo. Ao seu trabalho de rigorosíssima pesquisa, tantas vezes inédita, se devem os primeiros estudos de arte eborense baseados em recolha sistemática de informação documental sobre o património cultural com carácter de estudo e de inventário, para as terras dos Distritos de Évora e Beja. O resultado do seu trabalho continua a ser de referência. A certeza de que abriu campo para que o Centro Histórico de Évora, se tornasse há trinta anos Património Mundial da UNESCO é consensual. «Para além de ter deixado uma obra vastíssima de investigação e catalogação o seu legado marca sobretudo pela valorização do património numa abordagem social moderna de espólios vivos e evolutivos». O historiador de arte/inventariante como foi Túlio Espanca sabe analisar as obras de arte para melhor as interpretar: uma obra de arte nunca se esgota e, porque é obra viva, continuará a projectar estímulos em gerações futuras. Tem de saber (em Portugal, mais do que nunca) confrontar a obra com os seus outros modos (literário, moral, filosófico, científico, espiritual, económico, etc) para dela retirar os significados possíveis. Atento a conceitos como o de Micro-História da Arte (Ginzburg) e de des-compartimentação (Panofsky), soube relacionar as ciências da observação e representação, abrindo caminho à via sociológica e à integração globalizante da produção artística. A sua História da Arte pôde impõr-se, assim, pela vontade de re-conhecer e des-codificar as obras, apreender-lhes a carga de fascínios, explica-las no contexto histórico e ideológico, no quadro de um recenseamento globalizante. Só estudando os programas artísticos desaparecidos – através da cripto-história de arte – se devolve parte do fascínio às obras existentes. Todas as peças justificam olhar atento, missão de pesquisa, ternura de diálogo des-codificante, agudeza de estudo crítico integrador.

O sucesso do Inventário Artístico presente deve tudo ao saber de Túlio Espanca e ao seu espírito de trabalho em larga inter-disciplinariedade, onde foi absolutamente pioneiro no contexto do Alentejo. Basta verem-se as suas escolhas temáticas para A Cidade de Évora onde, desde os anos 40, reuniu a melhor colaboração portuguesa e estrangeira desde os Historiadores (medievalistas, modernos ou de História contemporânea) aos Arqueólogos, Historiadores de Arte, Conservadores e Restauradores, Museólogos, Arquitectos e Urbanistas, Arquivistas, Biólogos, Arquitectos-Paisagistas, Geógrafos… A variedade dessa colaboração especializada tornou a Cidade de Évora a melhor das revistas regionais de responsabilidade municipal, e a mais sólida base para o Inventário Artístico que se iria seguir e para toda a série de iniciativas de conservação, estudo e larga divulgação de Évora como Cidade-Museu. Saúde-se, a propósito, o facto de a revista voltar agora a ser publicada. Tudo isso devemos a Túlio Espanca. É necessário que esta revista prossiga dentro do mesmo espírito, tal como o seu fundador-editor a idealizou, como investimento cultural da Autarquia de Évora. Apesar da desmemórias galopante dos tempos, acredito que há heranças imperecíveis, como a que nos deixou Túlio Espanca, grande historiador de arte e grande investigador dos patrimónios comuns, com absoluta certeza também de que a sua obra científica está viva, e o seu legado incansável e sábio perdura. Com ele, passámos a ver as artes do Alentejo (eruditas ou populares, religiosas ou profanas) sem quaisquer tipos de preconceito, e a estimá-las, não com as tradicionais peias elitistas, mas sim como discursos de eloquência aberto, perene e de fascínio duradoiro. Em nome da Academia Nacional de Belas-Artes, de que foi membro ilustre, e que aqui também represento, expresso a minha gratidão à memória de Espanca -- pelo muito que com ele aprendi e, sobretudo, a saber ver melhor.

Homenagem_V.Serrao_Centenario.2003
(palavras de elogio, no lançamento de novo nº de A Cidade de Évora, nos Paços do Concelho de Évora, a 29 de Junho de 2016)
Vitor Serrão / Historiador de Arte / Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Vice-Presidente da Academia Nacional de Belas-Artes