Demostenes Espanca 

Demóstenes Apeles Espanca
(Vila Viçosa, 1908 - Reguengos de Monsaraz, 1993)


Nasceu em Évora no dia 1 de Abril de 1908, na Rua da Oliveira.

Filho de José de Jesus da Rocha Espanca e de Maria Rosa Alberto, e irmão de Túlio, Otelo, Sócrates, Natal e Joana Espanca, foi viver ainda garoto com seu tio João Espanca, pai de Florbela e de Apeles Espanca.

Frequentou a Escola Primária de Vila Viçosa até aos 10 anos e fez o exame de Instrução Primária no dia 6 de Agosto de 1919.

Matriculado na Escola Primária Superior, em Évora, não a frequentou muito tempo uma vez que arranjou, entretanto, um emprego numa casa comercial onde permaneceu até aos 25 anos, tendo chegado a exercer as funções de escriturário graças à frequência do curso noturno de Escrituração Comercial. Foi nesta altura que integrou um grupo cénico, da Escola Comercial, que chegou a ter algum êxito, nomeadamente em deslocações a Lisboa.


Em Maio de 1934 deslocou-se a Reguengos em atividade da firma que representava e acabou por se estabelecer cá, empregado na casa Costa Braz & Cª Ldª, que se situava na Praça de Santo António. Nesta casa comercial trabalhou durante 8 anos, primeiro como empregado de balcão e depois como escriturário. Transitou depois para o Grémio da Lavoura de Reguengos, local onde trabalhou por mais 37 anos, até se reformar, tendo exercido as funções de guarda-livros e, posteriormente, de técnico de contas.

Casou em 8 de Fevereiro de 1942 com Rosa dos Anjos Gonçalves.

Desde criança que Demóstenes Espanca sentiu paixão pelo desenho e pela pintura. Não tendo tido a possibilidade de frequentar qualquer curso de Belas Artes foi aprendendo à sua custa, visitando exposições onde procurava ir apreendendo conhecimentos através dos quadros que via.

Enquanto esteve em Évora dedicou-se a fazer variadíssimas caricaturas que eram muito apreciadas. Tal como o eram os programas de espetáculos cinematográficos que fazia para o Éden Teatro e que eram espalhados regularmente pelas montras das casas comerciais da cidade. Foi ainda, neste período da sua vida, colaborador em jornais de Évora e no jornal Brados do Alentejo, de Estremoz.

Quando veio para Reguengos continuou a dedicar-se à caricatura, a lápis ou aguarelada, à aguarela e ao desenho de uma forma geral. Em 1935 decorou a boca do palco da Sociedade União Montoitense com dois quadros alusivos ao teatro e à música e existe na Santa Casa da Misericórdia de Reguengos um conjunto de belas caricaturas por ele oferecidas para um Cortejo de Oferendas que teve lugar no ano de 1946.

Demostenes quadroPerdeu-se de amores por Monsaraz, ao visitá-la certo dia. Pelas suas casas, pelas suas ruas, mas sobretudo pela sua luz, que ele considerava excecional. Deslocava-se amiúde à vila medieval, com um pequeno bloco onde registava as primeiras impressões de cada motivo pictórico. Regressava a casa onde transpunha para a tela a mistura de óleos que iriam dar vida ao esboço antes feito. Muitas vezes lá voltava para desfazer dúvidas e acertar pormenores.

A presença do pintor João Barata no nosso concelho, nesta altura da descoberta de Monsaraz, foi decisiva na viragem operada na sua técnica artística. Demóstenes Espanca acompanhava-o frequentemente a Monsaraz e à zona do Álamo e via-o pintando. Recolheu dele importantes ensinamentos e influências, sobretudo ao nível da preparação dos óleos. Acabaram por se tornar amigos e manterem forte ligação. Espanca, que pintava com a tela numa cadeira e sentado numa outra à sua frente, ao lado da janela altaneira de sua casa, recebeu de João Barata um cavalete, que utilizou desde então, e um estojo de desenho.

A sua pintura a óleo dos inúmeros recantos de Monsaraz é marcada por um forte colorido de onde sobressaem os brancos luminosos das paredes caiadas. Também os motivos alentejanos e as figuras populares por ele retratadas são de uma fidelidade espantosa, conferindo uma vida muito própria a cada tela.

A sua amada Monsaraz saiu muito do anonimato graças às suas telas mas também a todo o empenhamento de que Demóstenes Espanca deu provas enquanto esteve à frente da Junta de Turismo local, desde 1975, tendo-a promovido juntamente com José Pires Gonçalves e Luís Lopes Perdigão, seus grandes amigos com quem se juntava frequentemente no Café Central discutindo o futuro daquela então abandonada vila.

Teve também Demóstenes Espanca, no seu percurso artístico, passagem pela arte fotográfica. Com uma Kodak que tinha sido de Apeles Demóstenes Espanca, irmão de Florbela Espanca, registou inúmeros clichés (porventura até os últimos de sua prima Florbela), tendo recebido muitos prémios. Em 1947, numa sociedade com Alberto de Carvalho Guerreiro da Cunha, abriu em Reguengos uma casa de fotografia denominada Bel’Arte. Situava-se na Rua Conde de Monsaraz.

Demóstenes Espanca participou em diversas exposições coletivas em Évora, Estremoz, Lisboa e Reguengos de Monsaraz.

Foi homenageado pelo Município de Reguengos de Monsaraz em Julho de 1993, numa exposição que teve lugar na Igreja de Santiago, em Monsaraz.

Faleceu no dia 6 de Novembro de 1993.

Foi atribuído o seu nome, no dia 13 de Junho de 2006, a uma rua da cidade de Reguengos de Monsaraz.

O jornal PALAVRA homenageou-o, por ocasião do centenário do seu nascimento, com o descerrar de uma placa alusiva na casa onde viveu e com uma exposição que reuniu cerca de nove dezenas de obras suas, tendo estado patente ao público entre 30 de Março e 13 de Abril de 2008.

Agradecimentos
D. Rosa dos Anjos Gonçalves Espanca
Prof. Ilídio Tavares

Foi recolhida informação de uma gravação áudio do programa “A Terra e o Homem” (conduzido por Ilídio Tavares e Maurício Rebocho) preenchida com uma entrevista a Demóstenes Apeles Espanca em 1986, nos estúdios da Rádio Corval

Trabalho de António Marcelino
publicado online em: http://www.portaldereguengos.com/maxcontent-documento-647.html - Junho de 2012